
MUSICA CLÁSSICA
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Produção de programas: Rede Vale Editora
Editor Responsável: Filipe de Sousa
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Quando falamos sobre ouvir música "clássica" ou "erudita", a primeira impressão sugere certa pompa, passado sobre o presente e carrega uma certa arrogância que os termos transmitem. No entanto, se escolhêssemos nome melhor (as vezes utiliza-se o nome "concerto") poderíamos estar deixando de lado milhares de obras compostas ao longo dos anos que não tem nada a ver com o que conhecemos como concerto. Assim, como o nome "música clássica" é um termo consagrado, deixemos as impressões de lado e vejamos o que ela significa.
A música clássica é uma tradição ocidental que tem seus primórdios na Idade Média, há mais de 1.500 anos, e cujas raízes vão mais longe ainda. Ela engloba os mais variados estilos e épocas: desde o canto gregoriano, passando pela polifonia medieval e renascentista, até as riquezas e sutilezas do barroco, as sinfonias e sonatas clássicas, a multiplicidade de estilos no século 19 e a reinvenção permanente das coisas no nosso século, tendo em comum uma linhagem da música estudada, elaborada.
Esse amplo leque de opções pode no início assustar ao ouvinte iniciante. A primeira pergunta que vem é - Por onde começar ? Devo então ouvir tudo para entender? A resposta é não, qualquer obra que se ouça é um bom começo, não precisa ser um "erudito" para ouvir os compositores chamados de eruditos.
Como toda tradição, a música clássica é um universo de nomes, conceitos, formas, estilos e técnicas, codificados numa linguagem quase incompreensível para quem não for especialista. Vamos falar um pouco sobre o tema nas páginas seguintes.
Como foi dito, ouvir música clássica deixa muita gente assustada, e pelos mais variados motivos como a vastidão do repertório, a concentração necessária, a pompa dos concertos, a desinformação sobre o assunto, a insegurança sobre a melhor maneira de ouvir.
Então, para começar a ouvir música clássica deve-se realmente se interessar por ela, não é necessário um aprendizado da história da música. Qualquer compositor, de qualquer período é um bom ponto de entrada.
Para ouvir e entender melhor a música clássica é importante que se preste atenção a ela para que se possa seguir o que está acontecendo numa composição, deve-se também acompanha-la do começo ao fim e não só algum movimento, já que o mesmo tema ou um pequeno elemento reaparece ao longo da obra inteira, e a maneira como isso se dá é parte da narrativa musical.
Portanto, para se ouvir música clássica é preciso prestar atenção o tempo todo.
Cantata - Originalmente uma
peça cantada, na qual uma pessoa recitava um drama em verso acompanhada por
um único instrumento. No século 17, o acompanhamento se torna mais complexo
e elaborado. No século 18, as cantatas passaram a ser escritas para coros
com diversos solistas, algumas vezes com prelúdios e interlúdios orquestrais
Concerto - Essa palavra tem dois sentidos em português:
1) qualquer performance pública de música. O concerto oferecido ao público
em geral, com entrada paga, surge na passagem do século 18 para o 19,
respondendo ao crescimento de uma classe média nas cidades. Antes disso, a
música só era apresentada na corte, na igreja, ou em casas particulares.
2) Peça musical, de grande escala, que opõe um ou mais instrumentos solistas
à orquestra. Nos séculos 17 e 18, muitos "concertos" são simplesmente peças
para conjunto. O "concerto grosso" barroco é uma composição em que um grupo
da orquestra tem papel proeminente em relação ao resto do conjunto (os
"Concertos Brandenburgueses" de Bach são um bom exemplo). A partir de meados
do século 18, o concerto assume cada vez mais a noção de um contraste
dramático entre um solista e a orquestra inteira. Esta idéia moderna do
concerto deriva, em boa parcela, das árias e cenas operísticas, com o papel
dramático e musical do cantor assumido pelo instrumento solista.
Lista seleta de concertos:
1. J. S. Bach (1685-1750), "Concertos para violino e orquestra"
2. Vivaldi (1678-1741), "As Quatro Estações"
3. Mozart (1756-91), "Concerto ns. 20 e 21 para piano e orquestra"
5. Beethoven (1770-1827), "Concertos 3, 4 e 5 para piano e orquestra"
9. Bartók (1881-1945), Concerto para orquestra
Estudo - Composição musical de forma livre, que favorece o
desenvolvimento técnico do instrumentista
Fantasia - Composição instrumental sem forma determinada
Fuga - Forma complexa de composição polifônica com base em um tema (o
"sujeito"), que é apresentado sob várias formas, geralmente acompanhado por
um tema secundário ("contra-sujeito")
Lied - Termo alemão que designa todas as formas vocais simples. A
palavra é usualmente empregada para designar as canções eruditas alemãs
(Schubert, Schumann, Brahms, Mahler, Strauss)
Oratório - Gênero musical dramático, de tema religioso, com solos,
coro e orquestra
Poema Sinfônico - Grande composição para orquestra sinfônica,
exprimindo uma ação
Prelúdio - Originalmente, era o trecho que antecedia uma Fuga;
depois, tornou-se uma peça de estilo livre.
Rapsódia - Composição musical sobre temas de melodias folclóricas
Réquiem - Música sacra destinada às missas pelas almas dos mortos
Sinfonia - A palavra
"sinfonia" vem do grego e significa "reunião de vozes". No início do período
barroco, uma sinfonia é simplesmente uma peça para vários instrumentos, com
ou sem vozes humanas. Mais tarde, em meados do século 18, a sinfonia passa a
designar uma peça para orquestra, que serve de "abertura" para um balé ou
ópera. O desenvolvimento dessas aberturas e sua divisão em três ou mais
movimentos leva à sinfonia do período clássico, que é o modelo por
excelência do que se conhece hoje por sinfonia. Se a música de câmara tem
analogias com a poesia lírica, a sinfonia é o equivalente musical do
romance: uma peça em grande escala, com várias camadas de interesse,
unificadas por um ou mais motivos centrais. A sinfonia adota os princípios
de construção da sonata para o idioma orquestral. No curso do século 19, o
modelo da sinfonia clássica vê-se expandido de muitas formas: desde a
sinfonia que interliga todos os movimentos, sem pausa, até o poema
sinfônico, as formas "cíclicas" e as grandes sinfonias da virada do século,
em muitos movimentos e chegando a mais de 90 minutos de duração. O espírito
sinfônico exige controle da relação entre os movimentos, tanto quanto dos
elementos internos de cada um. A sinfonia clássica é um gênero público, por
oposição à música de câmara, privada. Essa distinção vai perdendo valor ao
longo do romantismo, quando a sinfonia se torna um dos principais meios de
expressão pessoal do compositor. No século 20, a forma sinfônica cai em
relativo desuso. Uma peça como "La Mer" (1904) de Debussy ainda pode ser
descrita como sinfonia; mas "A Sagração da Primavera" de Stravinski (1913)
já faz da orquestra o veículo para uma outra idéia de música. Quando o nome
"sinfonia" é empregado por compositores como Messiaen ou Berio, a palavra
não se refere mais aos modelos da sinfonia clássica e romântica, e em certa
medida retorna ao seu sentido original.
Lista seleta de sinfonias:
1. C. P. E. Bach (1714-88), Sinfonias "Hamburgo"
2. Mozart (1756-91), Sinfonias (39, 40 e 41).
3. Beethoven (1770-1827), Sinfonias (1 a 9)
4. Berlioz (1803-69), Sinfonia "Fantástica"
5. Brahms (1833-97), Sinfonias (1 a 4)
Sonata - A palavra "sonata" quer dizer muitas coisas diferentes ao
longo da história da música. Mas quando se fala em sonata, hoje, via de
regra está-se fazendo referência ao modelo clássico da sonata, consolidado
por Mozart e Haydn em fins do século 18 e posteriormente expandido por
Beethoven, Schubert, Liszt e outros no 19. É importante diferenciar a sonata
(uma composição tonal, geralmente em três ou mais movimentos (allegro,
adagio, rondó, por exemplo), para um instrumento acompanhado ou não da
"forma-sonata", que aparece não só em certos movimentos de uma sonata (quase
sempre o primeiro), mas também em muitos outros tipos de peça, como a
sinfonia e o concerto. No romantismo, depois de Beethoven, a sonata será um
veículo do "sublime", assumindo na música o mesmo papel do épico na poesia
ou dos grandes painéis históricos na pintura. A sonata romântica libera-se
cada vez mais do modelo clássico e pode incorporar outros gêneros (como a
fuga e a fantasia). No século 20, a sonata continua em uso nas mãos de
compositores tão diversos como Debussy e Prokofiev, Boulez e Elliott Carter.
Ela implica sempre, em alguma medida, uma visão classicista da música. A
forma-sonata é mais propriamente uma forma de pensar a composição do que um
molde específico. A sonata está para a música de câmara como a sinfonia para
a orquestra: são as duas formas centrais do período tonal. O modelo
escolástico da forma-sonata foi definido por A. B. Marx, em 1845 e consiste
no seguinte: 1. exposição, com dois grupos temáticos, o primeiro na tônica e
o segundo na dominante; 2. desenvolvimento, onde os temas são trabalhados em
regiões harmônicas distantes; 3. recapitulação, que traz de volta os temas
na tônica. O modelo não é prescritivo -serve mais de centro abstrato para
onde convergem todas essas composições, que são sempre variações da
forma-sonata. O mais importante na forma-sonata é a maneira como as
possibilidades narrativas e dramáticas da tonalidade são desencadeadas.
Lista seleta de sonatas:
1. Domenico Scarlatti (1685-1757), Sonatas para cravo.
2. Haydn (1732-1809), Sonata para piano em mi bemol maior, Hob XVI: 52.
3. Mozart (1756-91), Sonatas para piano K. 310, 330 e 333.
4. Beethoven (1770-1827), Sonatas para piano op. 31/2 ("A Tempestade'), op.
57 ("Appassionata'), op. 106 ("Hammerklavier"), op. 110 e 111.
5. Debussy (1862-1918), Sonata para flauta, viola e harpa.
Suíte - Na Renascença, era uma seqüência de danças executadas por
conjuntos musicais, todas no mesmo tom, que se tornaram progressivamente
menos dançáveis.
Tocata - Designação antiga de composição musical para instrumento de
teclado.
MUSICA CONTEMPORÂNEA
As obras que vem sendo compostas
desde as primeiras décadas do século ......maioria dos ouvintes de música
clássica desconhece a música do próprio tempo. É comum ouvir opiniões do
tipo "isso não é música" ou similares, e essas opiniões vêm se repetindo
desde as primeiras décadas do século, indiferentes às muitas mudanças de
estilos de composição desde aquela época até hoje.
As últimas quatro ou cinco gerações constituem, na verdade, um estágio
inédito na história da recepção musical do Ocidente: a "nossa" música,
aquela que se ouve diariamente e faz parte da nossa vida, é a música do
passado, um século ou mais para trás, e a música que está sendo escrita hoje
fica para a platéia do futuro, se houver.
Num sentido estrito, pode-se aceitar o clichê de que a música contemporânea
"não é música": não é mais a música escrita segundo os princípios que
regeram a composição do fim da Renascença ao fim do romantismo. Não é tonal;
não tem melodias (ou não como se está acostumado), não segue a lógica dos
gêneros musicais estabelecidos.
Isso não quer dizer que não seja música, mas sim que o seu interesse foi
deslocado para outros elementos e atende a uma outra lógica.
Desde o dodecafonismo de Arnold Schoemberg e o serialismo de seu discípulo
Anton Webern, nas décadas de 1910-30, a música vem se metamorfoseando de
modo instigante e com resultados tão convincentes quanto os de qualquer
período, para quem tiver ouvidos para ouvir. Nos últimos anos, a composição
tem incorporado com sucesso especial os computadores e instrumental
eletrônico, muitas vezes em aliança com músicos ao vivo.
Mas o grau de inovação da música contemporânea (que exige um considerável
esforço inicial do ouvinte para aprender novas linguagens), aliado ao
desenvolvimento extraordinário dos meios de reprodução sonora (que deixam
todo o repertório antigo ao alcance da mão) e da indústria de concertos
(sempre voltada para um público mais tradicional), acabaram resultando num
grande abismo entre os compositores e o público de hoje.
A situação é insólita. Como se leitores de literatura não lessem nenhum
autor do nosso século, e apreciadores de artes visuais se recusassem a ver
quadros contemporâneos. No caso dessas outras artes, a tendência é
geralmente oposta: cultiva-se mais o atual do que o antigo. Mas não há
perspectiva de reverter a curto prazo esse divórcio entre platéia e músicos
contemporâneos, o que é uma pena.
Mesmo assim, nomes como Olivier Messiaen, Karlheinz Stockhausen, Pierre
Boulez, Luciano Berio ou Giorgy Ligeti já se integraram ao cânone da
composição, ombro a ombro com os mestres do passado. Acompanhar a obra dos
compositores que estão inventando a música do nosso tempo é um prazer
especial, que não deve ser ignorado por ninguém.(AN)
Pierre Boulez (França, 1925)
Compositor, regente, professor e ensaísta, Pierre Boulez é criador do Ircam,
um centro de pesquisa acústica e musical financiado pelo governo francês.
Dirige o Ensemble Inter Contemporain, um conjunto de música contemporânea, e
rege regularmente orquestras como as de Cleveland, Viena, Londres e Paris.
Herdeiro musical de Debussy, Boulez é o autor de um bom numero de obras
estabelecidas no repertório de concerto, como "Le Marteau sans Maître"
(1957), "Pli selon Pli" (1962), "Eclat/Multiples" (1970), "Rituel" (1975) e
"Répons" (1981/92), esta última uma espécie de "work in progress" para seis
solistas, orquestra e um programa de computador, considerada por muitos como
sua obra-prima.
Luciano Berio (Itália, 1925)
Companheiro de Boulez e Stockhausen nos cursos de composição em Darmstadt
nas décadas de 50 e 60, Luciano Berio é autor de uma das obras mais
acessíveis do repertório contemporâneo. Pioneiro da música eletroacústica ("Omaggio
a Joyce", 1958), virtuosístico no emprego inovador de instrumentos
tradicionais ("Sequenze" para piano solo, trompete solo, viola solo etc),
Berio é ainda um dos mais consagrados compositores vocais da atualidade
("Recital for Cathy, Folk Songs, Cries of London"). Sua Sinfonia, estreada
por Leonard Bernstein regendo a Filarmônica de Nova York, em 1968,
estabeleceu um marco não só na música, mas num movimento intelectual mais
amplo, conhecido superficialmente como "pós-modernismo".
Karlheinz Stockhausen (Alemanha, 1928)
Assim como Boulez, Stockhausen foi aluno de Olivier Messiaen, com quem
aprendeu a importância de sistematizar a inspiração bruta e o impulso de
experimentação. Autor de uma das primeiras obras reconhecidamente
importantes da música eletroacústica ("Gesang der Jünglinge", 1956), assim
como das "Klavierstücke" (1952-56), que inventam o piano como um novo
instrumento, Stockausen passou do serialismo integral (onde todos os
elementos da composição são tratados como séries) à música mântrica ("Stimmung",
1968), de peças sinfônicas como "Gruppen" (para três orquestras, 1957) à
música para fita magnética e à ópera (o ciclo "Licht", projetado em sete
partes, das quais quatro já foram estreadas).
MUSICA E TEATRO - A Ópera
A ópera é um mundo de paixões e ela
provoca apaixonados. Não há gênero que mexa com mais força e violência no
ouvinte, que é sempre, de alguma maneira, espectador. Porque a ópera é
também, e essencialmente, teatro. Um teatro onde as emoções vividas pelos
personagens foram intensificadas até atingir o ponto de paroxismo por obra
da música. A ópera não é um teatro musical, é um teatro feito de música.
O texto da ópera, chamado libreto, é, na grande maioria das vezes, escrito
em verso e concebido de maneira simplificada. Ele não se sustenta por si só,
como uma peça, porque precisa ser alimentado pela música, criadora do poder
de convicção que as palavras e as situações adquirem em cena. Por essa
razão, o compositor da ópera é sempre muito mais importante do que o autor
do libreto. Entretanto, ao tomar um libreto para compor uma ópera, o músico
depende do desenrolar da história. Não é possível compreender a ópera
isolando uma coisa e outra. Imaginar que se possa ouvi-la como se ouve uma
sinfonia, um quarteto de cordas ou uma sonata é engano. Basta pensar num
dado simples: que sinfonia, que quarteto, que sonata agüentariam durar as
quatro horas do "Crepúsculo dos deuses" de Wagner, ou as três e tantas do
"D. Carlo" de Verdi? É que os primeiros são feitos de sons que se organizam
e se desenrolam no tempo, enquanto os segundos narram uma história. O tempo
da ópera é o tempo da história que deve ser contada com música.
A ópera nasceu por voltas de 1600. Alguns artistas e intelectuais italianos
tentaram recriar a antiga tragédia grega que incorporava também a música,
embora essa música se tivesse perdido. O resultado foi um gênero
inteiramente novo, cuja força dramática imediatamente se impôs.
Como toda música "erudita", os espetáculos de ópera nunca são sonorizados, a
não ser quando apresentados em locais adequados, ao ar livre, em produções
de baixa qualidade artística. No início, os teatros eram pequenos e as
orquestras reduzidas. Mesmo assim, cantar uma ópera significava já um
esforço considerável. Com a ampliação das salas e o aumento das orquestras
ocorrido no século passado, com a escrita cada vez mais exigente dos
compositores, cantar um ópera tornou-se uma espécie de proeza atlética.
Exige-se dos cantores musicalidade, beleza de timbre, mas também volume e
capacidade de atingir notas que vão do grave ao agudo numa amplitude muito
grande.
Ter voz não é dado a todo mundo e muitas vezes quem a possui não apresenta o
físico correspondente para os papéis que deve representar. Os tenores são os
galãs das histórias; Pavarotti é tenor; apesar do seu tamanho, ele deve
encarnar papéis por vezes de jovens românticos. Ou então, é o soprano enorme
que possui uma voz perfeita para interpretar a parte de Mme. Butterfly
(Puccini), uma gueixa delicada. Estas são as situações que mais espantam
quem não conhece ou não gosta de ópera.
É claro que uma correspondência entre o personagem e o cantor é desejável:
por exemplo, os nossos dois jovens brasileiros Rosana Lamosa e Fernando
Portari interpretando maravilhosamente o "Elisir d'Amore" (Donizetti). Mas
mesmo quando o intérprete possui um físico ingrato, se ele canta realmente
bem, há uma espécie de milagre que acontece: a música o transforma no
personagem e o público passa acreditar na Butterfly de 130 quilos.
Há quem adore, há quem odeie, há quem despreze a ópera. Raras são as
posições de meio-termo: o gênero possui uma tal força que elimina os
indiferentes. Amar a ópera significa, no entanto, uma fonte muito forte de
prazer e vale a pena tentar.
Para quem nunca teve contacto com a ópera, creio que o melhor seria começar
ouvindo certos trechos, as árias, que são partes de solistas mais
desenvolvidas e que possuem uma unidade. um bom método é comparar
interpretações -duas, três ou mais- e tentar distinguir as diferenças de
timbres dos cantores, o modo de desenhar as frases, tanto do ponto de vista
melódico quanto dramático. Assistir a uma ópera ao vivo pode ser também -se
ela for bem interpretada- uma experiência marcante. hoje, os teatros
projetam a tradução dos textos originais (cantados em italiano, alemão,
francês etc.) ao mesmo tempo que a ação se desenrola no palco. Isto facilita
muito a compreensão do que está ocorrendo e mesmo o mais completo neófito
pode, sem nenhuma preparação, ir a uma ópera como se fosse ao cinema. Há
também a audição integral, em casa, pelos discos. É preciso então escolher
com cuidado as gravações, porque uma interpretação ruim pode dispor o
ouvinte para sempre contra uma bela obra.
OS CANTORES - Tipos de vozes
As vozes são classificadas em seis
categorias principais.
São femininas as três primeiras, mais agudas. Até o início do século 19
havia também os chamados "castrati", homens que cantavam no mesmo registro
que as mulheres porque tinham sido castrados quando criança de modo a que a
voz não mudasse durante a adolescência. Nesse período, vários papéis foram
compostos para eles, papéis masculinos que hoje, em geral, são interpretados
por mulheres.
Mas, via de regra, as vozes femininas caracterizam-se assim:
Soprano é uma voz mais aguda - Os chamados sopranos ligeiros possuem vozes
mais leves, flexíveis e luminosas, apropriadas para personagens inocentes,
virginais e muito jovens, como Gilda, de "Rigoletto" (Verdi). As vozes dos
sopranos dramáticos são mais espessas e vinculadas a mulheres mais veementes
e mais vividas, como Tosca (Puccini) ou Isolda (Wagner). Mezzo-soprano, ou
meio-soprano, não quer dizer um soprano pela metade, mas uma voz mais grave
do que a do soprano. São personagens frequentemente muito sensuais e
sedutores, como Carmen (Bizet) ou Dalila (Saint-Saens). Contraltos possuem
vozes ainda mais graves, o mais das vezes destinadas a papéis de mulheres
velhas ou com poderes excepcionais (Ulrica, do "Ballo in Maschera" de Verdi,
Erda, do "Anel do Nibelungo" de Wagner).
As vozes dos homens são as seguintes:
O tenor tem voz aguda. É o herói, o mocinho da história, cuja idade gira em
torno dos 20 anos. Sempre foi a voz preferida do público: o cantor mais
célebre da história, Enrico Caruso, era tenor como o são Pavarotti e
Domingo. Um grande papel de tenor é o de Calaf, de "Turandot" (Puccini),
cuja ária "Nessun dorma" é conhecida por todo mundo. O barítono,voz grave e
aveludada,é, em princípio, um pouco mais maduro ou, então, assume uma função
cômica: é o caso de Fígaro, do "Barbeiro de Sevilha" (Rossini), o papel mais
célebre para essa voz. O baixo possui um registro profundo que desce a notas
muito graves,é frequentemente ou poderoso, ou idoso, ou ambos ao mesmo
tempo: os papéis de pai nobre são quase sempre consignados a eles, assim
como o de reis e imperadores (Boris Godunov, da ópera de Mussorgsky, reúne
as duas qualidades).
Estas classificações de vozes, assim como suas relações com os personagens,
são sempre concebidas em regra geral, existindo infinitas exceções. Mas é
possível imaginar algo assim: o tenor ama o soprano, também amada pelo
barítono, vilão da história que tenta impedir a todo custo que os dois
jovens se amem. O mezzo-soprano é rival do soprano. Se há um pai, ele será
baixo; se há uma feiticeira, ela será contralto